31
- January
2019
Posted By : Equipe Dente
Dente indica 8 leituras de 2018

2018 foi um ótimo ano para as publicações alternativas e independentes no Brasil, sendo registradas no Calendário de Feiras de Arte Impressa e Publicações Independente (iniciativa da Ana Paula Francotti) cerca de 108 feiras em todo o país! Nós participamos por exemplo da última edição da Feira Plana (torcemos para não ser verdade) e de um incrível Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), ressurgido das cinzas! A Dente Feira de Publicações foi a maior das suas 4 edições, com 80 projetos editoriais na feira e 13 atividades formativas, entre minicursos, oficinas, debates e ateliês que aconteceram durante 3 dias!

Entramos em contato com projetos autorais e publicações incríveis e decidimos compartilhar as leituras preferidas das 8 integrantes da equipe Dente!

 

 

 

Sobreviventes do Césio 137, de Carla Lacerda

por Ana Terra

Um dos maiores acidentes radiológicos urbanos do mundo, esquecido. Hoje, quando alguém toca no assunto pouca gente sabe o que de fato ocorreu, e quantas pessoas até hoje sofrem por conta do caso. Nesta edição atualizada do livro, Carla Lacerda reúne entrevistas com as vítimas do acidente do césio 137 que denunciam o descaso do governo que ocasionou tamanha tragédia de forma emocionante. Publicado pela editora alternativa Nega Lilu, o livro vai agradar leitores que gostam de jornalismo investigativo, não-ficção e memórias.

 

 

 

 

Juras, de Julia Balthazar

por Daniel Lopes

Em Juras, acompanhamos diálogos em uma reunião de família que logo trazem à tona memórias e traumas das personagens. O grande diferencial do que poderia ser um drama familiar cotidiano vem das soluções gráficas escolhidas pela autora.

De maneira bastante minimalista, Julia representa as figuras quase que somente por suas silhuetas, conferindo um alto grau de subjetividade e criando uma atmosfera onírica em toda a narrativa. O leitor é levado a preencher as lacunas como se tentasse lembrar de uma memória bem antiga, dessas que parecem compartilhadas por cada infância.

Em uma terceira camada de leitura, poderíamos ainda levantar questões de linguagem presentes no desenho. Espaços negativos deixados pelas silhuetas dos personagens completando os móveis, recortes e montagens de formas quase abstratas, o uso ainda que eventual do texto como imagem. Juras vale ser lido e relido a cada vez que se pegar na mão.

 

 

 

 

A Linguagem do Corpo, de Kathy Acker, traduzido e editado por Marina Dubia

por Diana Salu

Muito difícil escolher uma zine dentre as que li ano passado para compor esse pequeno quadro de leituras, com certeza não há “a melhor zine que li”, porque não existem melhores, existem diferentes qualidades, reverberações, encontros e trocas. Decidi então escolher aquela que foi para mim a mais inesperada e deliciosa surpresa. “Contra a Linguagem Ordinária: A Linguagem do Corpo (Against Ordinary Language: The Language of the Body, no original)” é um ensaio da autora Kathy Acker traduzido e publicado em formato de zine por Marina Dubia, artista, escritora e publicadora responsável por ótimas zines, que instigam e sempre buscam traduzir em formatos únicos os trabalhos dos autores publicados. Como nos conta em sua “intradução”, Marina “tropeçou” com esse texto navegando pelo site www.ubuweb.com e se deparou com algo “esquisito, escandaloso, excêntrico; um ensaio sobre musculação!”. Da mesma forma, durante a Dente do ano passado, tropecei com essa zine, de acabamento elegante e simples: papel rosa, costura e capa em papel vegetal; e me vi também envolvida numa leitura inesperada de uma zine que se insere de maneira belíssima na tradição clássica das zines punk e anarquistas que traduzem e reproduzem textos incríveis e instigantes que não se encontra em qualquer lugar.

Pósfeministapunknovaiorquinafisiculturistapósmodernaqueertatuada, Kathy Acker nos traz, através de uma sincera reflexão sobre a experiência da musculação, um ensaio contundente, que nos coloca cara a cara com os desafio da transposição de linguagens, do confronto inevitável com a morte, e da possibilidade de uma linguagem, que, – ao rejeitar a linguagem ordinária e sua “tendência de gerar sintaxe ou fazer significados proliferarem.” – permite a ocorrência do impossível, em que “significado e fôlego se tornam um”. Na descoberta e vivencia do corpo vamos perdendo a linguagem ordinária, como quando nos embrenhamos em uma terra estrangeira nos perdemos de nossa língua-mãe, mesmo ainda sem ser capaz de compreender a nova língua que nos rodeia. Nosso corpo, uma terra estrangeira. E o exercício constante e fadado ao fracasso de tentar controlá-lo com ferramentas calculadas e jogos de linguagem nos levam a poder conhecer este que não pode ser controlado e conhecido e “encontrar aquilo que a consciência ordinariamente não pode ver.”

 

 

 

Paráfrase Urbana, de Clivson David

por Heron Prado

Paráfrase Urbana, do Clivson David, é uma coleção fotográfica de pixações, a zine tem um acabamento muito interessante e até sofisticado (pensando em acabamentos de zine.), com folhas de papel vegetal intercalados. A visão do Clivson sobre essas pixações, o tratamento que ele dá para as fotos – todas em preto e branco – e a curadoria das fotos balanceia a zine numa corda bamba entre a melancolia e o caos da cidade. Uma zine ótima para manter na mesinha de centro, ou no criado-mudo, pegar de vez em quando e se sentir andando por aí sem ter que sair de casa, ou até mesmo para acender a vontade de dar um rolê, e sair vazado.

 

Sua voz, de Flavushh

por Livia Viganó

Sua voz, de Flavushh, publicada na Coleção Des.Gráfica – dedicada a narrativas experimentais –, é uma hq que tem uma mistura instável entre desenho e texto, espaço e pensamento, que curto muito. Flavushh faz eles se chocarem a cada página, e você fica ali dentro tentando respirar junto a Ana, uma garota rodeada por medos e inseguranças, compartilhados nas suas conversas diárias com a “Voz” do outro lado da parede. Fiquei fascinada pelo desenho da “Voz”, de vê-la se formando pelos traços fortes, cheios de ruídos, fumaças e movimentos. Super recomendo a leitura e aconselho acompanhar o trabalho da autora em @flavushh.

 

 

Ascensorista, de Maria Fulana

por Lovelove6

Ascensorista não é uma zine de experiências gráficas minimalistas ou poesia dada, como pode parecer num primeiro e superficial contato. Decifrar a performance criptografada da artista Mayra Flamínio, que assina o projeto editorial Maria Fulana, me trouxe aquela incrível sensação de quando, por exemplo, encaramos uma obra ready made e vamos de “qualquer um poderia fazer isso” para “puta merda agora eu entendi e é muito foda”. A artista se fez de ascensorista de elevadores aleatórios para pessoas estranhas e capturou esses períodos de tempo, de uma forma que eu me recuso a chamar simplesmente de registro, porque não é uma zine de relatos. Ela não proporciona uma experiência de leitura, ela é a própria performance. O ritmo e a ordem dos seus códigos geram essa sensação de estar vivenciando a performance, como se viajássemos no tempo ou como se o tempo da performance ele mesmo, tivesse sido magicamente selado e mantido vivo dentro da zine.

Por meio de um material e uma ideia despretensiosa, Ascensorista enfatiza a importância fundamental da narrativa e da intenção que envolvem uma obra de arte contemporânea. Revela, por meio da ausência de um dado fundamental para sua compreensão (a história da artista), que existem outros fatores em jogo ao se julgar obras como essa. Dimensões impalpáveis e muito mais importantes do que o objeto estético em si, que demandam da leitora ou da observadora ação, curiosidade e envolvimento, para serem descobertas e então aprofundarem os sentidos e a sua reflexão. Pelo seu formato acessível de zine, além de tudo me parece um bom material para ensinar a grupos muito diversos e distantes do mundo das artes visuais sobre como se relacionar com a arte contemporânea e como, às vezes, ela pode ser um máximo.

 

 

 

 

Carne, de Annima de Mattos

por LTG

Carne é uma história em quadrinhos sobre sexo, raiva e ciclos. Já conhecia o trabalho da Annima e acho que esse foi um passo interessante na sua trajetória. É um desenvolvimento do seu trabalho, que agora me pareceu mais sério, profundo e íntimo. O traço é delicado e a narrativa desconstruída tem um estrutura cíclica. Eu li pela primeira vez na convocatória da Desgráfica, onde fui um dos jurados, e apesar da história não ter sido selecionada, a autora publicou uma versão impressa mesmo assim. Só isso já é uma coisa muito boa, gostaria que todo mundo conseguisse publicar os seus projetos, mesmo não sendo contemplado em prêmios, editais etc. Depois eu adquiri a minha cópia e recomendo a todos que curtem quadrinhos sobre sexo, raiva e ciclos. Corram que a tiragem é limitada.

 

 

 

Juras, de Julia Balthazar

por Tais Koshino

Um almoço de família ou seria um jantar? Não se sabe ao certo, a imagem não é nítida. As silhuetas desenhadas por Júlia apenas falam aquele papo que se dá nesse tipo de encontro, uma falsa saudade, uma enunciação de chegada. Não vemos seus rostos, mas eles sempre evocam memórias. Uma memória doce e permeada por uma sensibilidade única e uma amizade entre duas meninas que precisam fugir e decidem morar para sempre na praia. Não foi isso que aconteceu, é claro, era um sonho infantil, a protagonista está nesse encontro no presente, cheio de meias conversas que não interessam, parentes que não despertam nenhum afeto. Todos se movem e se reúnem pela comida que está servida. Um brinde a essa refeição em família que nos parece tão distante. Talvez nada disso faça sentido, tudo afunda, acho que a protagonista preferia ter ficado na praia.

 

 

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